quarta-feira, 10 de março de 2010

O ano da Pica

Desde os primeiros dias de 2010 que de vez em quando me vinha à cabeça a ideia de que este ano era, por algum motivo, importante. Que alguma coisa acontecia em 2010. Mas não sabia o quê, para além de eu fazer 21 anos e atingir a maioridade de todas as maioridades.
Até que um destes dias me lembrei. Este ano tenho que levar uma vacina.
ESTE é o ano da Pica!
Tive que procurar pelo velho e manchado boletim de vacinas, porque tenho muitos amigos que são um ano mais velhos que eu e já estava confusa (e esperançosa), pois podia ser só em 2011. Mas não, é mesmo este ano.
Foi então há dez anos que escreveram aqueles números a lápis, marcando para dali a uma década a data da próxima vacina, o que para uma criança de onze anos significa uma Era. Pensava em 2010 como se já fosse por essa altura, adulta e cheia de mim, velha. Pensava como se a pessoa que seria nesse ano fosse absolutamente diferente da que eu era na altura.
E agora olho para essa criança e vejo que não. Porque entre muitas outras coisas, continuo a ter medo de levar picas. E continuo à espera de um dia vir a ser a pessoa que previra ser em 2010. Mas agora sei que talvez nunca a venha a ser.
Talvez seja sempre puramente e só uma criança com mais dez anos,
e mais dez, e mais dez,
e morra a sonhar com ser crescida.

Vamos ver que data é que escrevem depois. Até lá, medo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dou por mim a analisar a minha vida, e descubro sempre novos factos para me preocupar. Ou para ter pena, ou para ter medo. Instala-se um medo de viver, um pânico do tempo que passa e do que poderá trazer com ele. Um filme de terror, quando já se está aterrorizado mas se sabe que ainda virá algo pior, aquela tensão.

As vezes acordo com os problemas já a latejarem nas têmporas. Nesses dias penso que se me enrolar na minha cama e me esconder debaixo dos cobertores, imóvel, eles vão desaparecer. Que vão embora, incomodar outra pessoa qualquer que não a mim. Mas eles sobrevivem e multiplicam-se juntamente com os minutos verdes que passam no despertador.

E depois é o eu ser esta criatura ruminante das emoções. Atrás de qualquer pensamento ruim vêm sempre todas as amigas desgraças que estão guardadas lá dentro da memória à espera de serem lembradas, para me enterrarem em tristeza. E lá fico soterrada por mais algumas horas, dias, até que alguém me venha resgatar dos escombros.

Coragem.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O desvio


A estrada era a direito. Mas a certo ponto havia um desvio. Não era uma encruzilhada, por isso não me obrigava a escolher. Ou pelo menos parecia.
Quando me detive naquele ponto e percebi que afinal havia outra opção, esta começou a crescer e já não a podia ignorar. Era uma escolha que parecia estar feita à partida, mas ainda assim era uma escolha.
Agora afigurava-se-me um outro caminho, e a hipótese de que talvez houvesse algo à minha espera, pacientemente, no seu fim, algo melhor e mais bonito cresceu na minha mente e saiu-me pelos olhos fora.
Mas a estrada por onde eu seguia era maior e mais confortável, com menos buracos e lombas, mais fácil para o meu frágil veículo deambular. Tive medo de arriscar, ficar atolada na minha curiosidade e perder-me no meio da noite, embora perdida já eu me encontrasse.
Segui a estrada grande como se não houvesse outra, na certeza de que esta me levaria onde eu queria, ainda que de facto não soubesse o que queria. Mas a pequna estrada e os seus mundos por descobrir ficaram no meu pensamento por anos e anos.

Um dia voltei lá, e a estradinha já não existia. O mato tinha tomado conta dela e apenas um pequeno carreiro a substituía. Mas em mim aquela estrada vivia, agora mais viva do que nunca, agora que vi tudo na grande estrada, agora é que eu ia ver.
No fim dela encontrei uma casa e vi uma vida abandonada, um túmulo em pedra fria onde se podia ler
"Esperei por ti, enquanto pude..."

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Daquela janela

O que vês da tua janela?

Esta pergunta não me leva para as minhas janelas, banais de uma cidade dormitório. Delas
vejo prédios com outras janelas, um café com vizinhos anónimos e quase que vejo um pequeno jardim.
Esta pergunta leva-me para uma outra janela. Os Avós chamavam-lhe "janelo", com uma pronúncia deliciosamente engraçada.
Uma janela que ficava numa porta, que podia estar fechada e ninguém para lá olhava, ou podia estar aberta e me dava um cheirinho de rua sem sair de casa, quando já era tarde e não podia sair.
Ficava na porta de uma casa pobre. Mas eu não sabia o que era ser pobre, sabia o que era ser feliz. E isso era-o, nada mais importava.
Porque dentro daquela porta estavam sempre à espera da minha pequenina pessoa, muitos e grandes braços abertos, cheios de um amor que não acabava. E pão com manteiga.
E fora dela ficava uma rua perfeita, enfeitada de vizinhos, intrigas, amigos e brincadeiras. E pulgas.
Foi naquele sítio que eu cresci, foi num "Bairro de Lata" que eu vivi os melhores momentos da minha infância. Para mim não era de lata, era de Ouro, e valia mais que o maior dos palácios.
Aquela janela e aquela porta davam entrada para uma casa que já não existe. Nem a rua, nem o bairro, nem mesmo os Avós. Já nada existe.

Excepto na minha cabeça e no meu coração, que é onde ficam guardadas as coisas boas que já não podemos ver ou visitar.
Mas ficam junto com a mágoa de já não saber se tudo era realmente assim ou se já é em parte imaginado, deturpado pelo nevoeiro dos anos e das novas memórias.
E não há forma de recuperar...

Como era, como quero que tenha sido, não interessa! Deixem-me apenas olhar pela janela da minha memória, ver esse filme e chorar.
De felicidade, saudade, melancolia.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Pelos caminhos de... Alentejo

(Desejei tanto fotografar-me no meio destas flores... Mas esta foi a única imagem possível.)



Tocada pela (c)alma das planícies alentejanas...


A paisagem a querer dizer-me algo sem palavras. A esmagar-me com a beleza das coisas que simplesmente existem.

Na rádio ouço algo alguém cantar sobre uma 125 azul, que me soa descontraído e alegre, apropriado, enquanto penso que aqui, os pouco automóveis que surgem com a estrada me parecem tão deslocados.
E estão.

Uma terra-Mãe repleta de vinhas, olival, seara e girassol. É toda uma paisagem a querer alimentar-me com aquilo que de melhor tem Portugal. E que em troca só me pede que a contemple em silêncio e devoção.
E tire uma ou outra fotografia para levar.

Levo também, na boca do coração, sabor de comida temperada de campo. Sabor a azeite e a alho, que teimaram em ficar a brincar no meu paladar.
E eu deixei. Até chegar o doce de uma queijada, tostada e rica.

O Sol, hoje, quer apenas abraçar-me carinhosamente, e não sufocar-me num aperto infernal. Ao reflectir-se nas searas , salpicadas de oliveiras ou sobreiros, dá-me um efeito cinematográfico de um mar dourado com pequenas ilhas verdes.

Surpreendo-me a amar também este simples, belo e calmo Portugal, e a querer levar algo dele comigo para o outro.
Aqui está.


(Texto escrito em 6 de Junho de 2009 na viagem entre Serpa e Beja, numa pequena agenda, e descodificado hoje com alguma dificuldade e algumas consequentes alterações)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Falhar


Senti saudade e não a quis contrariar. Encontrei-me contigo. Quando me pediste mais companhia vacilei, mas cedi. Falhei-lhes e fiquei contigo. Egoísta.
Desejaste-me. Eu fiz o impensável e pensei, voltei a vacilar (não lhes quero falhar mais porra) e a ceder. Não te falhei, mas falhei-lhes, e a mim própria. Constatei que tinha errado. E afinal também te falhei. Culpa.
Cheguei-lhes. Sorri de desculpas e quis falar. Ninguém me ouviu, dormiam já todos. Sozinha.

Que falhanço, sou uma falhada.
Falho na minha própria existência; de tanto esforço para estar para todos, nunca estou inteira para nada nem para ninguém.

(Tu não falhaste a ninguém, excepto a ti mesma. E eles falharam-te todos.)



segunda-feira, 18 de maio de 2009

Citação de um pretenso-futuro-eu

"Suponho que tarde ou cedo se perde a candura. Talvez seja melhor assim, porque não se pode andar pelo mundo como um ingénuo, em carne-viva e sem defesas. (...) Agora, quando já dei volta à dor várias vezes e posso ler o meu destino como um mapa cheio de erros, quando não tenho nenhuma pena de mim próprio e sou capaz de rever a minha existência sem sentimentalismos, porque encontrei alguma paz, só lamento a perda da inocência."
O Plano Infinito, Isabel Allende
Dói, mas é necessário.
É necessário, mas dói.
A inocência não serve para nada e tem de se perder. Mas sabem tão bem essas talas ao lado dos olhos da mente que não nos deixam processar as coisas feias da vida.
Até que desaparecem e nos deixam expostos, a sofer na pele cada minuto da realidade, a questionar a cada passo a loucura do mundo. E diz que temos que nos ir habituando à merda da vida, que é para o bem da sanidade mental.
Então porque é que só quero ser inocente de novo? E eu não sou masoquista.
Ponham-me as talas de novo ou então consertem o mundo e ponham-no bonito, por favor.
(Só quero um dia ter essa paz para falar da minha existência sem sentimentalismos, porque agora parece-me absurdo.)