segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ano novo, medos novos

O ano começou como eu sabia há muito tempo que ia começar. E tinha medo. Era, nessa altura, aquele medo que temos das coisas distantes. Tenho-o muitas vezes. É tão aterrorizador, mas ao mesmo tempo a distância traz-me um consolo. É o consolo do célebre "Ai, até lá não me doa a mim a cabeça". E escusado será dizer que até lá a cabeça acaba sempre por doer. Nem que seja quando penso nesse inimigo do futuro.
(Não me bastavam já os do passado...!)
O tempo não pára e mal olho para mim, acordada num dia como os outros, o momento temido chegou. E o consolo da distância desapareceu, mas sou injectada com uma dose de força, de um sentimento de irreversibilidade.
"Aí vou eu, preparada ou não".
E é difícil. Mas temo já não ser tanto como parecia. Vem não sei de onde uma força, ou uma cegueira, que faz esquecer o medo e me faz enfrentar a realidade.
(Ai se um dia essa força me falta...)
E depois passou. E tudo parece tão ridículo como ter medo do papão debaixo da cama aos 19 anos. Mas nada me impede de ter este medo irracional da próxima vez.

Desta vez não passou. Porque desde há dois anos atrás estes medos das épocas de exames vêem e vão, mas deixam sempre um rasto de más notas atrás deles. Que se acumulam.
(E más notas com mais más notas não fazem notas boas...)
E vão alimentando os medos futuros. O medo de um futuro que agora me parece depender tão estreitamente das boas notas que já não tenho.
(Se ao menos não fosse pressionada!)
Aqueles auditórios e salas e testes sugam-me o cérebro, a ambição, a confiança, a vida.
Sinto-me cada vez mais estupidamente emburrecida.

Talvez um dia tudo isto me pareça ridículo. Espero que sim.
Até lá não me doa mais a mim a cabeça.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Não, não é cansaço...

A Mãe observa-a.
Olha fundo nas fundas meias-luas escuras debaixo dos seus olhos, no amarelo triste da sua tez.
Escuta o grito abafado da sua saudade.
Cheira o vácuo no buraco negro do seu medo.
Tacteia a ferida infectada, sobre o lençol que lhe cobre a alma.
A Mãe sente-a.
Como só uma mãe faz.

- É cansaço, Filha?
- Não sei, Mãe. Pergunta ao Fernando Pessoa.

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Álvaro de Campos

sábado, 17 de janeiro de 2009

meios-irmãos, meios-estranhos

Tenho dois meios-irmãos. Os dois da parte do meu Pai. Há uma qualquer hierarquia popular que define que se chamam meios irmãos só quando partilham a mesma mãe, e só irmãos quando partilham o mesmo pai. Já nem vou questionar os porquês disso.
Temos um milhão de anos de diferença (dois milhões no caso da meia-irmã mais velha) e não temos qualquer semelhança física. Nem eles têem entre eles. Mas descobri recentemente que o meu meio-irmão também gosta muito de lençóis de flanela. E foi esquisito.
Vejo a palavra "irmão" ser usada em diferentes circunstâncias.
Há irmãos que, embora tenham as suas divergências, partilham sempre de um sentimento que os une. Quanto mais não seja, o facto de terem vivido juntos em alguma altura das suas vidas.
Há irmãos que são unha-com-carne, melhores amigos e conselheiros uns dos outros. Têem-se ali. São-se. Para o bem e para o mal.
Há irmãos que ainda que não tenham afinidades de sangue, se tratam como tal, e a irmandade é tão sentida que ninguém discute a sua legitimidade.
Há pessoas que não são irmãos mas são terrivelmente parecidos. Por vezes nem se conhecem.
E depois vimos nós, que não somos nada disto, mas que toda a gente usa as mesmas palavras para nos descrever. Sermos irmãos é uma anedota, é embaraçoso, devia ser até motivo de revolta para os verdadeiros Irmãos!
Temos algo de irmãos, a ciência pode explicar isso. Mas não pode explicar o vazio de sentimento e de tudo que há entre nós. O que somos então?
Claro que somos meios-irmãos.
E também somos estranhos.
Somos meios-irmãos, meio-estranhos.
Assim já somos todos pessoas completas.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Amor de vidro


É um dia daqueles cansativos de tanto nada fazer. As pernas perderam músculos algures entre as horas sentada e os doces do Natal.
Vou à sala e dou um beijo à Mãe, daqueles cheios de saudades antecipadas pela certeza de uma perda, que se manifesta não se sabe bem porquê.
Olho para a janela da varanda e vejo desenhado no vidro embaciado um coração e por baixo a palavra "LOVE".
Quem escreveu aquilo? Eu? Não, eu não fui.
Então foi o Pai. Sei-o de imediato.
O Pai gosta de passar alguns dos escassos momentos que fica em casa a observar a rua daquela janela. E num desses momentos escreveu aquilo. Só pode.
E passa-me pelo coração a dúvida de um Pai que não conheço. Que escreve clichés nas janelas.
Porquê Pai? Tu até nem falas muito, nem és muito dado a lamechices dessas. Tantas vezes espero por uma palavra carinhosa tua, que não chega, ou chega em formas tão estranhas como uma ameaça de violência fingida, como quando era uma criança ainda pequena.
Porque mostras esse teu lado através de pontas de dedos frios numa janela ofuscada pelo choque do frio da rua para onde olhas e o quente confortável da casa onde moras? E para a qual às vezes preferes não olhar...
O que te ia na alma Pai? Alguma réstia dos anos 60? Da tua juventude? Da tua alma que não conheço? Não conheço...

Gosto do modo, por vezes embaraçoso, como as inscrições que fazemos num vidro embaciado permanecem, mesmo depois de este ter "desembaciado" e voltado a embaciar outra vez.
Não vou apagar aquela, Pai.
Para que volte e a vejas quando contemplares sei lá o quê nesta rua parada.
Para que eu a volte a ver e ela arrefeça novamente em mim a tristeza de saber que nunca te vou conhecer.
Nem tu a mim.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Ser lá: Loucas viagens da Memória

Ás vezes na imensidão de pensamenos que vivem afogados pelo meu corpo formam-se imagens de memórias, tão nítidas que, de repente, sou lá.
Sou lá. Não importa quem, onde, como, quando esteja quando este isto me invade.
Eu SOU lá. Que loucura!
Não é um banal "estar lá". Isso é para os outros, aqueles que lembram apenas, que reescrevem a história na cabeça, de cada vez diferente. É ser! Mesmo!
Estar é presenciar, ver, ser visto, pouco mais.
Eu SOU. Sinto tudo. É tão breve mas é TÃO tudo.
Sinto a camisola bege picar, a borbulha doer, o amor nascer a medo, a saudade crescer na distância, o meu falar igual ao teu, a juventude dos anos que na altura ainda não tinha, o olhar fixado em...
Um olho...
Uma boca...
Uma mão...
Um cigarro...
Desapareceu. Tão depressa como veio.
E sou aqui outra vez.
E depois estou EU. Eu como nunca estive!
Porque em escassos segundo fui lá e fui aqui, e são os lás e os aquis que fazem de mim EU.
Estas loucas viagens da memória...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Olá senhor acaso



Era uma vez um senhor chamado Acaso. Sem nome próprio, apenas Acaso.
Dispensa apresentações, porque penso que este “indivíduo” chamemos-lhe assim, é conhecido de todos e de ninguém, consoante as visitas que o meu post tenha.
Não, o Senhor Acaso não é um indivíduo. Prefiro “força”.
É aquela força que faz as coisas imprevisíveis e indesejáveis acontecerem. Aquela que move a mesinha da sala e a põe a à nossa frente quando estamos atrasados. A mesma força que tem o poder (passo a redundância) de proporcionar um inacreditável desencontro com o amigo com quem combinámos num sítio quando um dos dois não tem bateria no telemóvel e, simultaneamente, de colocar no nosso campo de visão alguém que seria verdadeiramente embaraçoso encontrar, quando aquele caminho não faz parte da rota diária de nenhum dos dois.
Muita gente diria que é uma curiosa coincidência. Outros que é o místico destino a fazer o seu trabalho.
Eu culpo o Senhor Acaso. Ele é mais do que física, ultrapassa o conceito de duas massas que estão presentes no mesmo sítio e fazem algo acontecer. Mas é um pouco menos do que uma coisa mística e super misteriosa que controla tudo e todos e que tem sempre um propósito para os seus actos.
O Senhor Acaso está mais para uma criança inocente com vontade de brincar. E tal como muitas das crianças é cruel e inconsequente. Tem vontades, impulsos. Depois de jogar o seu jogo pode rir-se muito ou pode não achar a brincadeira nada de especial. Mas os peões já foram jogados e catástrofes já foram causadas. Ou não. Seja como for.
E agora Senhor/Menino Acaso? Estou zangada contigo. Não teve piada…

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O que é isso?

Uma das poucas coisas que aprendi em semiótica. Talvez a única.
Podia citar uma definição, mas parece-me mais adequado explicar or palavras minhas.
Angústia da Influência é um sentimento do qual padecem alguns pseudo-escritores (nos quais me incluo). Este sentimento consiste na sensação de que tudo o que haveria para ser dito ou escrito já o foi, nomeadamente por alguém mais competente do que eles (nós) próprios, por isso de pouco ou nada adianta escrever seja o que for. E não escrevem. Ou têem imensa dificuldade em fazê-lo, daí ser chamado de angústia, porque o é de facto. É estupidamente incapacitante.

Pois bem, eu sofro imenso desta angústia, ou fobia, ou mania, ou o que lhe quiserem chamar, por isso a criação de um blog é um passo para tentar ultrapassá-la e deixar de privar o mundo das minhas ideias.

Que se lixe a influência!